RECICLAGEM: QUANDO O PROBLEMA VIRA SOLUÇÃO

RECICLAGEM: QUANDO O PROBLEMA VIRA SOLUÇÃO

“Isso aqui é uma mina de ouro!”

A frase dita pelo Ativista Social, Ademar Aparecido de Jesus ao entrar no Aterro Sanitário de Marília no ano passado, quando a cidade enfrentava talvez uma das piores crises no setor, é a essência do que queremos tratar neste artigo. Em entrevista concedida ao jornalista da MATRA nesta semana, Ademar deixou claro o quanto o LIXO – que atualmente é encarado como um grande problema e que consome quase um milhão de reais por mês do orçamento do Município – pode se transformar em uma solução extremamente viável e barata para o Município, além de ser uma excelente oportunidade para se promover a INCLUSÃO SOCIAL de centenas de famílias que sobrevivem da RECICLAGEM.

O líder comunitário da zona norte confirmou o que muitos já imaginavam: falta vontade política para viabilizar projetos no setor. Por seis meses no ano passado, Ademar ocupou o cargo em comissão, de Coordenador de Resíduos Sólidos na Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Limpeza Pública. Nesse período ele afirma ter desenvolvido vários projetos em conjunto com o ex-secretário da pasta, Ricardo Mustafá, dada sua vasta experiência na área. Dois desses projetos nos chamaram bastante a atenção: o primeiro e mais óbvio é o da implantação imediata da coleta seletiva no Município, que resultaria em um volume de material reciclável muito maior para ser recolhido e vendido pelos catadores e pequenas cooperativas que se formam na cidade.

O segundo projeto no mesmo sentido diz respeito à implantação de Pontos de Entrega Voluntária – PEVs, onde por meio de containers espalhados em pontos estratégicos da cidade, qualquer pessoa poderia depositar o material reciclável, devidamente separado do material orgânico (em qualquer dia e horário), para que estes resíduos tivessem a destinação adequada, deixando de ir para o aterro sanitário interditado de Marília para depois serem transportados de caminhão até aterros regulares em Quatá e Piratininga. Afinal, atualmente o material reciclável faz parte das cerca de 240 toneladas de lixo produzidas diariamente no Município, e que ao invés de proporcionar geração de RENDA para as centenas de famílias que sobrevivem da reciclagem hoje em dia no Município, se transformam em custo (elevado por sinal) para todos os cidadãos que moram aqui.

Tais projetos já foram enviados ao Gabinete do Prefeito e pelo que consta não tiveram andamento até agora. Mas por qual motivo? O que justificaria a demora em implantar medidas simples e que não exigem grandes investimentos da Prefeitura para melhorar a qualidade de vida de centenas de pessoas que sobrevivem da reciclagem, em prol do meio ambiente e em defesa da boa aplicação dos recursos públicos? Ou alguém duvida que gastar quase um milhão de reais por mês para mandar toneladas de lixo para outras cidades é desperdício de dinheiro público? Antes de ser exonerado, Ademar chegou a iniciar a construção de alguns desses pontos de coleta de material reciclável com ferragens retiradas do lixo, mas o projeto não teve o apoio da Administração Municipal, segundo ele. Atualmente o ativista social ajuda a organizar os catadores da região em uma Cooperativa. Para se ter uma ideia das dificuldades, até o final do ano passado, vinte catadores de materiais recicláveis estavam unidos no projeto, mas apenas oito se mantém no trabalho. Lúcia Silva é dona de uma pequena empresa que compra e vende recicláveis. Segundo ela, no cenário atual os catadores da região conseguem retirar do lixo, em média, cinco toneladas por semana. Mas é possível, apenas com a implantação dos ecopontos por exemplo, passar para duas toneladas por dia. E com uma quantidade maior triplicar o valor dos materiais (aumento a renda das famílias) negociando diretamente com as usinas de reciclagem e eliminando os atravessadores. Isso apenas nesse embrião de cooperativa, imagine se o trabalho for organizado e mais catadores se juntarem. “A inclusão que pode ser feita através da reciclagem é tremenda, ela é imensa. Tudo o que se imagina ser dejeto, que é descartado no aterro sanitário, tudo vale uma fortuna, tudo é dinheiro”, conclui Ademar de Jesus.

Outro exemplo de falta de incentivo do poder público é da COTRACIL – Cooperativa de Trabalho Cidade Limpa. Instalada há quinze anos no bairro Tóffoli, na zona sul da cidade, a cooperativa chegou a ter 40 cooperados e processava mais de 20 toneladas de materiais recicláveis por mês. Atualmente “respira por aparelhos”, segundo a presidente, Ana Maria Marques Rodrigues.

Sem equipamentos, com parte do telhado do barracão usado para a separação dos materiais danificado, com o acesso (que é de terra) em péssimas condições – o que não permite o descarregamento dos materiais em dias de chuva – e apenas 12 catadores cooperados, a entidade não consegue recolher, separar e vender mais do que quatro toneladas de materiais recicláveis por mês – o que não é suficiente para garantir a subsistência das famílias envolvidas.

Problemas envolvendo o convênio firmado entre a Cooperativa e a Prefeitura em 2012 (governo Bulgareli) lhe resultaram ainda, em uma cobrança de R$ 68 mil – conforme apontamento do Tribunal de Contas do Estado – e que a entidade não sabe como quitar, diante da situação atual.

Umas das pessoas que ainda sobrevivem do trabalho na Cooperativa é Bruna Batista. A jovem de 22 anos cresceu neste cenário. Filha, neta e sobrinha de catadores, costumava andar pelas ruas da cidade recolhendo recicláveis a bordo do carrinho de mão empurrado pela avó. Segundo ela, hoje tanto a avó quanto a mãe conseguiram comprar uma casa popular, graças ao lucro obtido com a venda dos materiais que foram encontrados no LIXO. O mais impressionante foi ver o entusiasmo da menina com o assunto: “Além de ajudar a gente, a reciclagem ajuda o meio ambiente e a cidade fica mais limpa. Todo mundo ganha”, disse a catadora.

“Tem muita gente que vive da reciclagem. Agora, se você tem um lugar organizado você pode pegar todas essas pessoas que estão na rua, muitas vezes acompanhadas de crianças pequenas, e pôr aqui, numa sombra, com uma água pra beber, etc. Mas do jeito que está não tem como”, concluiu Ana Rodrigues.

Dizem que o ótimo é inimigo do bom.  Ótimo seria a solução definitiva para o destino do lixo, com a instalação de uma usina de reciclagem, mas nada impede “que se mate dois coelhos”, atendendo aos mais carentes. No site da MATRA tem uma galeria de fotos sobre o assunto que será tema de outros artigos em breve. Lembre-se Marília tem dono: VOCÊ.

01 – FOTOS com Ademar Aparecido de Jesus, zona norte de Marília:

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02 – FOTOS com Ana Maria Marques Rodrigues, COTRACIL – zona sul de Marília:

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03 – FOTOS: acesso à Cotracil (Bairro Tóffoli)

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Fotos: Fábio Rosa