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Ciclofaixa em Marília e em outras cidades do Estado de SP têm suspeitas de irregularidades, aponta Estadão

16 de junho de 2015 - 12:29

Duas empresas pertencentes a um dirigente da Federação Paulista de Ciclismo (FPC) são as maiores beneficiadas pelos mais de R$ 2,5 milhões que o governo do Estado de São Paulo destinou à entidade para a implantação de ciclofaixas de lazer nas cidades de Marília, Ribeirão Preto, no interior, e Diadema, no ABC paulista, entre 2013 e 2014. Concorrentes, a Oliveira Transportes e Serviços e Ágil Express, juntas, receberam mais de metade do montante repassado.

Para o secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco, há indícios de fraude. “É muita coincidência que diversos serviços o sejam por parte de pessoas ou entidades que tenham no seu quadro social pessoas que estão na própria Federação.”

População pedala na ciclofaixa de lazer em Marília, no interior de São Paulo

Prefeito e funcionários da Administração pedalam na ciclofaixa. Foto: Prefeitura de Marília/Divulgação

 

Já o professor de Gestão de Políticas Públicas da Universide de São Paulo (USP) Jaime Crozatti critica a falta de “bom senso”. “A impressão que a gente tem é de que a coisa está tão fácil e tão mal fiscalizada e punida que as pessoas estão perdendo o bom senso, até mesmo na hora de cometer esse tipo de falcatrua”, diz.

No convênio firmado pela Secretaria de Esporte Lazer e Juventude (SELJ) com a FPC para a implantação da ciclofaixa em Ribeirão Preto e em Marília, por oito meses, Ágil Express e Oliveira Transportes receberam R$ 941,1 mil para locações de grades e veículos, entre outros serviços.

Já no convênio referente a Diadema, que vigorou por seis meses, os valores chegaram a R$ 361,8 mil. Documentação obtida pela Rádio Estadão mostra que as duas empresas concorriam nas tomadas de preço apresentadas pela FPC à secretaria. A Time Mkt, de Marcelo Gomes Coelho, outro dirigente da federação, também participou das concorrências.

À época em que os convênios vigoraram, entre 2013 e 2014, Rogério Barrenha Benucci era, ao mesmo tempo, membro suplente da atual gestão da federação e sócio de Luciana Benucci na Ágil Express. Apesar de não aparecer no quadro societário da Oliveira Transportes, da qual o único sócio é Fernando Barrenha de Oliveira, Luciana assina todos os orçamentos da empresa nas tomadas de preços.

Sediadas em São Bernardo do Campo, no ABC, as duas empresas têm seus sites cadastrados em nome da mesma pessoa, Luciana, cujo telefone para contato é o número comercial da Ágil Express.

A atendente da Ágil confirmou, à Rádio Estadão, que ali funciona também a Oliveira Transportes. Questionada sobre quem responde pelas duas pessoas jurídicas, a atendente foi categórica. “Vou te passar o telefone da proprietária, a Luciana Benucci.”

Luciana já é alvo de inquérito aberto pelo Ministério Público Estadual (MPE) de São Paulo, em 2012. O órgão investiga irregularidades relacionadas a convênios entre a SELJ e a ONG Lineri, presidida à época por Luciana.

Segundo dados do TSE, a empresária – que é sócia e parente de um membro da FPC – doou, em 2010, R$ 1,2 mil para a campanha a deputado estadual de Marcos Mazzaron, então presidente da entidade. Ele concorreu pelo PTB, sigla que comandou a pasta estadual dos Esportes entre 2006 e 2014.

Apenas no último mandato do governo estadual, mais de R$ 24 milhões foram repassados à FPC pela SELJ, para Centros de Excelência, ciclofaixas de lazer – que são ativadas aos fins de semana, separando a via exclusiva para ciclistas por meio de cones -, competições regionais, internacionais e mesmo eventos amadores, como jogos escolares.

O convênio para a ciclofaixa de Diadema inicialmente previa a instalação da mesma em Paraisópolis. A alteração no projeto foi pedida pela FPC à SELJ porque a federação observou que a rua que havia sugerido tinha fluxo maior de carros aos domingos do que durante a semana.

Ciclofaixa de lazer em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, funciona aos domingos

Ciclofaixa de lazer em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, funciona aos domingos Foto: Prefeitura de Ribeirão Preto/Divulgação

 

 Comissão interna. Em nota, a SELJ informa que os convênios mencionados pela reportagem estão sendo auditados por uma comissão interna da pasta instaurada em abril deste ano, após o Estado denunciar supostas irregularidades nos contratos com outras entidades, entre ONGs, federações e confederações.

A SELJ reforça que cabe à instituição beneficiada o cumprimento integral do contrato e o uso devido da verba repassada, informa que o programa Ciclofaixas de Lazer passa por reformulação desde o início deste ano e que será substituído pelo Pedala São Paulo, ainda em fase de estudos.

Procurada pela Rádio Estadão, Luciana Benucci e Silva não atendeu as ligações até a publicação desta reportagem.

Duas semanas depois de receber os questionamentos da Rádio Estadão, a Federação Paulista de Ciclismo encaminhou a apuração ao departamento jurídico e não se manifestou. O empresário Marcelo Gomes Coelho não retornou as ligações da reportagem.

Fonte: Estadão

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