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Doações obscuras

20 de novembro de 2012 - 08:58

Parece indisputável a ideia de que sempre há algum interesse por trás das doações eleitorais. No melhor dos casos, a motivação pode genuinamente ser ajudar um candidato que se imagina o melhor. De forma geral, a negociação costuma ser menos sublime: trata-se de investir certo montante na expectativa de obter vantagens futuras.

Nada há de errado quando uma pessoa ou uma empresa procura influenciar a política. Existe um problema, contudo, quando isso é feito nas sombras da democracia.

Quando falta transparência ao financiamento eleitoral, o cidadão não tem como saber quais interesses estão por trás de cada candidatura; tampouco pode verificar se os atos do eleito se pautam obscuramente pelas doações que recebeu.

Desse mal padecem as eleições brasileiras. Uma brecha da lei ainda permite que a maior parte das doações seja feita de forma oculta –os recursos são repassados ao partido, que em seguida direciona as verbas aos candidatos. Nessa modalidade, é impossível vincular o doador ao político beneficiado.

Não parece ser coincidência que esse mecanismo opaco seja o preferido. Entre os candidatos a prefeito eleitos no primeiro turno nas maiores cidades do país, quase 70% das doações foram ocultas.

Na Câmara Municipal de São Paulo, o fenômeno se repete: 59% dos R$ 51,7 milhões arrecadados pelos vereadores eleitos foram repassados aos partidos. Em 2008, a julgar pelas cifras oficiais, a disputa foi menos cara e mais transparente: as doações ocultas representaram 33% de R$ 36,5 milhões, em valores corrigidos pela inflação.

Quando consideradas apenas as doações identificáveis (R$ 21,3 milhões), empresas de construção e do setor imobiliário lideram os repasses aos vereadores eleitos, com cerca de um terço dessa fatia.

Os mesmos ramos de negócios concentram a maior parte das doações ocultas feitas aos comitês de campanha do PT e do PSDB em São Paulo. Juntas, essas empresas deram 62% do que os dois partidos receberam diretamente em suas contas na capital paulista.

A falta de transparência prejudicará o acompanhamento dos vereadores pelos paulistanos. Uma dificuldade que não é de somenos –em particular quando os legisladores municipais precisarão votar um Plano Diretor para a cidade, documento que muito interessa aos investimentos imobiliários.

*Editorial Folha de São Paulo

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