“Eu criava mosquitos da dengue em casa!”, relata uma cidadã mariliense

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 Sim! Eu, professora universitária, que me considero uma pessoa bem informada, cidadã responsável, pago meus impostos e cumpro a lei, fui surpreendida ao descobrir que criava o temido Aedes em minha própria casa. Infelizmente, quem descobriu isso não foi nenhum agente de saúde, fui eu mesma. Na verdade, quando recebi a visita do agente em minha residência, com toda sobrecarga e desvio de função que estes profissionais estão vivenciando (deveríamos ter agentes específicos para ações desta natureza!), ele mal entrou e já se antecipou dizendo: “A casa da senhora nem preciso olhar, aqui deve estar tudo certo!”. Eu tive que explicar para ele que não era bem assim. O mosquito não escolhe os locais pelo nível de escolaridade, classe social, etnia, time de futebol ou partido político. Está em toda parte. Contei-lhe o ocorrido muitos meses antes da epidemia.

Nossa cafeteira começou a apresentar um pequeno vazamento na parte traseira, molhando o armário e trazendo transtornos. Sem tempo para consertá-la, nossa funcionária colocou um potinho atrás para captar a água. Problema resolvido, ela retirava o pote diariamente e tudo caminhava bem. Até que ela adoeceu e ficou um período sem trabalhar conosco. Na rotina diária, os afazeres domésticos eram feitos na correria, no fim da noite, sem tanto capricho. Nem me lembrei da existência do “potinho” por vários dias. Até que em um final de semana, em uma faxina mais caprichada, encontrei-o, cheio de água suja com pó de café, e mesmo assim, repleto de larvas! Pode ser que eram de outro inseto, mas ao que tudo indica, eram dele mesmo! Na minha própria casa!

Foi preciso coragem para contar o ocorrido para as pessoas, pois me senti extremamente envergonhada da situação. Mas, então, pensei: “Se eu, que cuido de minha casa com zelo, fui capaz de fazê-lo, quantos outros não podem estar na mesma situação e ainda não se deram conta?!” Alguns por pura displicência mesmo e indiferença com o coletivo, mas outros por desinformação ou capturados pela correria do dia-a-dia, não estão atentando-se aos detalhes de seu ambiente.

Infelizmente, diante da realidade atual que nossa cidade enfrenta, nesta epidemia de dengue que parece não ter fim, a maioria de nós, até mesmo minha filha de 5 anos, já tem certa ideia sobre alguns possíveis criadouros do mosquito, como pneus, vasos com pratos, garrafas e outros recipientes, que podem acumular água, local no qual o mosquito reproduz-se. Nos últimos meses, falamos sobre dengue em casa, no trabalho, nos bares, no ônibus. Infelizmente, os panfletos informativos não dão conta de informar-nos sobre várias outras possibilidades. A busca pela internet e colegas da área ajudam um pouco, para quem tem esse acesso e interesse.

Atrás de toda geladeira moderna há um recipiente de coleta do degelo automático, que acumula água, banheiros com pouco uso tem ralos e os próprios vasos sanitários que também são um risco. Precisamos ampliar o conceito sobre o modo de o mosquito reproduzir-se. Não é preciso a água parada para o local ser considerado um foco em potencial. Qualquer lugar que possa vir a acumular água é um risco. A fêmea não bota seus ovos na água. Ela vai botar em um local seco, como o cantinho do pote de água do seu cão. Ao trocar a água, mesmo que diariamente, eles permanecem lá. Quando entrarem em contato com a água é que os ovos eclodem, tornando-se larvas e em 48 horas, mosquitos, sendo que cada um em sua vida pode chegar a picar 300 pessoas! Assim, estes potes precisam ser esfregados mesmo para que os ovos (que não enxergamos!) não tenham a chance de entrar em contato com a água. Fico pensando nas tantas casas fechadas, para alugar, por exemplo, as piscinas sem o cuidado semanal necessário, nossos lindos jardins com as tantas bromélias (não adianta estarem em local coberto se acumularem a água com a qual as regamos!). Terrenos sem uso, acumulando lixo alheio e matagal. Pequenas tampinhas e latinhas são criadouros em potencial! Estou longe de ser perfeita, como puderam ver. Ainda adio para o final de semana a olhada na calha para confirmar se não tem folhas segurando água parada. Mas, pelo menos hoje, estou atenta a isso.

Com minha fala não tenho a menor intenção de culpabilizar a população pelo que está acontecendo. Muito pelo contrário. A informação e a fiscalização são função do poder público. Ao contrário, o que tenho visto, é a “deseducação” da população. Os adesivos agora colocados em locais verificados ou pulverizados com o dizer: “Local livre de dengue!” é um absurdo! Traz a ilusão de que há uma “bolha protetora” ali e que todos estão seguros para sempre! Onde hoje não há dengue, amanhã pode haver! Os mosquitos voando podem ter morrido, mas se os criadouros voltarem, novos virão, sem demora! A sensação de dever cumprido é perigosa! Pode gerar um descompromisso e a vigilância sobre os tais detalhes cessar.

Até quando a prefeitura continuará agindo de modo amador, jogando pelo ralo o dinheiro direcionado para a epidemia com ações como drones, entre outras, que além de inadequadas para o momento, ainda contam com uso político da situação e com desconfianças sobre possíveis desvios da verba?

Precisamos de técnicos especializados para lidar com situações desta natureza, de crise. A própria vigilância epidemiológica tem tido seu espaço de ação limitado. Busquem as universidades, o Ministério da Saúde, sabe-se se lá quem mais. Na verdade, já deveríamos ter técnicos especializados em todos os setores da prefeitura contratados/concursados e não pessoas indicadas por outros motivos que não a competência técnica. Assim fosse, em situações como esta já saberíamos o que fazer (ou talvez nem chegassem a acontecer!)

A primeira etapa é assumir com transparência a situação. Isso não vai alarmar a população! Já estamos todos alarmados! Cada cidadão mariliense já tem em sua família, vizinhança, trabalho ou roda de amigos pessoas que estão ou estiveram com dengue. E pior! Alguns tem pessoas queridas que morreram em função dela. Mesmo que a causa de óbito possa incluir comorbidades, estas pessoas viveriam muitos anos com Diabetes, pressão alta e problemas vasculares se não tivessem pego a dengue!

Não somos apenas mais uma cidade do estado de São Paulo com epidemia, entramos para o ranking como a número 1! Vergonhoso! Esse dado não pode ser banalizado! Os números não só podem estar sendo omitidos intencionalmente, como certamente são irreais, pois há subnotificações! Meu marido é um exemplo disso. Ele teve dengue no ano passado. Felizmente, temos acesso a um convênio médico, assim ele tratou-se e curou-se. Ninguém ficaria sabendo do caso dele. Mas, como sei da importância para a saúde coletiva dos números dos casos nas regiões, busquei a Unidade de Saúde próxima a nossa residência, com os exames dele já confirmando o caso para fazer a notificação. Mas, a orientação recebida foi a de que ele teria que ir pessoalmente, às 7 horas da manhã, para aguardar consulta e fazer a notificação. Expliquei que ele não poderia ir, pois tinha se ausentado do trabalho uma semana pela doença e estava curado. Mas, não houve acordo. Assim, o despreparo do profissional ou a burocratização ou inflexibilidade do sistema fez com que ele não se tornasse um número. O caso dele não contou na estatística do nosso bairro. Quantos outros também não?

Assumir os números reais e a dificuldade de controle da situação demanda coragem, pois trazem conseqüências para a imagem da administração. Mas, só isso os levará a buscar as ajudas necessárias, não só para terem verbas, mas para agregarem conhecimento técnico para o bom uso do dinheiro público.

Estou longe de ser especialista no tema, sou uma mera cidadã preocupada como tantos outros. Mas, parece óbvio que ações mais eficazes precisam ser pensadas e operacionalizadas. Algumas delas são básicas e não demandam alta tecnologia. As ruas precisam ser limpas! O acúmulo de lixo em frente das casas, prédios, nos terrenos (inclusive em vários espaços da própria prefeitura! Há terrenos abandonados, focos em Unidades de Saúde!), os bueiros, que não permitem o escoamento adequado das águas. E isso não pode acontecer pontualmente, um dia no ano ou por ações também fantasiosas de emissoras de TV. Tem que ocorrer o ano todo.

Os buracos das ruas e calçadas precisam ser tampados. Como disse anteriormente, se houver ovos em qualquer um deles, em apenas 48 horas em contato com a água, multiplicam-se mosquitos. Precisam ser disponibilizadas tampas adequadas para as caixas d´ água da população, que encontram-se destampadas, quebradas ou mesmo para as famílias que reservam água de outras maneiras, em função da falta deste recurso de que nossa cidade também padece em alguns momentos.

São urgentes medidas judiciais que garantam a entrada em todo e qualquer espaço e a instalação de altíssimas multas para os potenciais focos encontrados. A saúde coletiva não pode estar submetida ao direito privado.

Mas, sem dúvida, também podemos fazer nossa parte. Além de rezar para aqueles que têm fé, resta usar repelentes e pulseiras de citronela, tomar homeopatia preventiva (para aqueles que têm condições de acesso a estes produtos! Alguns comprovados em pesquisas científicas, outros duvidosos, mas no desespero, vale um pouco de tudo!). A barreira física ajuda, então mesmo com calor, devemos escolher calças e sapatos fechados para diminuir a possibilidade de contato do mosquito com a pele. Falamos em plantas, como a Crotalária, para futuramente diminuir o número de mosquitos e larvas em função da libélula atraída por ela, o que deve auxiliar mais em espaços rurais ou com córregos, pois ela busca reservatórios maiores para reproduzir-se e não pequenos potes. Mas, são válidos. Cuidar da nossa alimentação e hidratação especialmente. Evitar a automedicação e buscar ajuda no caso dos sintomas, como febre, dores no corpo e no fundo dos olhos, vômitos, diarréia, manchas vermelhas pelo corpo (embora isso signifique muitas horas de espera na fila para poucos profissionais, que se desdobram também sobrecarregados, e mínimos recursos para dar conta da demanda, falta soro, remédio, tudo!). Este é outro ponto a ser melhor planejado pela prefeitura. As pessoas doentes, além de serem cuidadas com diferentes graus de gravidade (alguns casos evoluem muito rápido!), não devem circular pela cidade, pois estão com o vírus e se o mosquito picá-las, pode vir a contaminar outros.

Devemos cobrar as autoridades do que lhes cabe e não tem sido feito, mas isso não nos exime de nossa responsabilidade! Cuide da sua “cafeteira” diariamente! Se possível, cuide também da de seus familiares, vizinhos e amigos que lhe permitirem a dica e a ajuda. Para aqueles que não lhe derem este espaço, há a possibilidade de denúncias e a constante cobrança para a solução do problema em questão. Isso é fazer sua parte. A partir daí, contamos com a responsabilidade e a competência dos que tem o dever de zelar pelo povo. E a nós, cabe também a vigilância constante sobre eles!

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Camila Mugnai Vieira

Professora de psicologia e cidadã mariliense