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Lista do mensalão tem pipoqueiro e até secretários

19 de dezembro de 2011 - 09:19

Consegui nos últimos dias levantar com exclusividade os primeiros dados, informações e nomes do esquema de mensalão de mais de R$ 500 mil com dinheiro desviado dos cofres da Prefeitura. A controversa relação retrata aparelhamento político e desempenho suspeito.

A base das informações que vou divulgar aqui é o que está apurado e devidamente escrito nos inquéritos que culminaram na prisão do ex-chefe de gabinete e ex-secretário municipal da Fazenda, Nelson Virgílio Granciéri, o Nelsinho, acusado de operar e gerenciar o esquema de corrupção que sustenta a malfadada administração de Mário Bulgareli.

A lista tem dados irônicos como pagamento de R$ 200 ao pipoqueiro Bozó, que fica instalado na avenida Sampaio Vidal esquina com a rua Bahia, em frente ao prédio da prefeitura. Trabalha e óbvio ouve a boataria de política e estaria recebendo para contar o que escuta.

Se o pipoqueiro leva dinheiro vivo em pequena quantia, a lista é extensa e pega gente bem formada, de destaque e grandes salários oficiais mas que estão na relação do caixa dois, no esquema sujo do mensalão.

Dois casos emblemáticos: o médico Júlio Zorzetto, secretário da Saúde, do PT, aparece com o recebimento de R$ 10.000, enquanto José Expedito Capacete, secretário de Serviços Urbanos, do PPS, levou R$ 38.000. (veja relação completa nesta página).

Os dados que mostro aqui são assegurados por fontes em off, um direito constitucional de jornalista investigativo. Participou dessa apuração o repórter Gustavo Simi, das rádios Dirceu AM e Diário FM. Nenhuma autoridade da Polícia Federal de Marília ou do Ministério Público Estadual fala sobre detalhes do conteúdo dos processos alegando sigilo.

No entanto, os dados estão confirmados em perícias de documentos e contabilidade entre as mídias apreendidas na Operação Dízimo, deflagrada no final de novembro pela PF e Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) após devassa na prefeitura e na casa de Nelsinho.

Na coletiva da semana passada, após a prisão de Nelsinho, o promotor do Gaeco, Neander Antônio Sanches divulgou o que era prerrogativa de sua atuação e disse: “A contabilidade apreendida aponta pagamentos mensais de grande monta, na casa dos R$ 500 mil, a diversas pessoas, partidos e aliados políticos e até funcionários públicos. Há até descrição dos centavos pagos”.

Há uma planilha com dados dos pagamentos apreendida possivelmente num drive que estava na casa do ex-chefe de gabinete. Os registros são de apenas quatro meses referentes a julho, agosto, setembro e outubro deste ano e indicam que o mensalão crescia cada vez mais.

De tão contundentes as evidências no primeiro depoimento que fez logo após sua prisão no dia nove, na sede da PF, Nelsinho confessou operar o esquema de mensalão. Alegou que através destes pagamentos seu grupo político mantém-se no poder.

A revelação da existência da lista da propina foi anunciada pelo promotor público que ouviu o depoimento de Nelsinho: “Ele citou vários nomes de empresários, políticos, funcionários públicos e jornalistas que recebiam o dinheiro. Também falou que o prefeito sabia do esquema desde o início”.

Com Neander Sanches atuam nas investigações uma equipe de promotores: Silvio Brandini Barbagalo, Celso Bellinetti Júnior e Gilson César Augusto da Silva.

Pela Polícia Federal de Marília equipes são comandadas por Sandro Vieira e José Navas Júnior.

Naturalmente nada foi criado por Nelsinho, integrante que era de conjugação de interesses e grupo político. O comandante por direitos e deveres é o até agora Mário Bulgareli.

Nelsinho era até então o super secretário e homem da confiança de política, administrativa e assuntos pessoais de Bulgareli nos últimos 10 anos e quem mandava em tudo ao ponto de aparecer como o candidato a prefeito na sucessão dos atuais governistas.

Planilha de pagamentos desvenda esquema

A planilha demonstrativa de contabilidade do caixa dois operado por Nelson Grancieri, o Nelsinho, aponta pagamentos para inúmeros aliados e negócios suspeitos. O valor exato gasto em outubro é R$ 520.335,53.

Os dados fazem parte do pen drive (dispositivo de memória similar a um isqueiro e que deve ser acoplado a computador) apreendido na casa de Nelsinho. Material já foi periciado e tem laudo da Unidade Técnico-Científica da Polícia Federal.

Não consegui ter acesso à íntegra do que está na planilha do pen drive, mas apurei a existência de vários pagamentos de outubro, como PTdoB igual a R$ 6.000, 00, PTC, R$ 3.000,00 e codinomes Tobe, R$ 1.000,00, Zé Carlos R$ 5.000,00, Tonhão R$ 35.000,00, Volponi R$ 120.000,00 e Zé Roberto R$ 10.000,00.

O caixa dois ostenta valor de R$ 526.859,07 movimentados em agosto. As descrições macro indicam a seguinte divisão: PAT, R$ 256.859,07, Terreno-Sol R$ 90.000,00 e Casa Santa Antonieta R$ 160.000,00. Aparecem indicações de parcelamentos desses valores.

Outra investigação aponta a compra de barracão na rua Dr. Manhães, no bairro Parque São Jorge, por R$ 350.000,00 e que seria de Nelsinho mas estaria registrado com um suposto “laranja”, o auxiliar de enfermagem João Paulo Hilário da Silva. O pagamento pela compra do imóvel seria de R$ 25 mil mensais.

A distribuição de dinheiro a partidos políticos também parece ser uma festa de nababos segundo dados que estaria na planilha indicando pagamentos em outubro, setembro e agosto. Na contabilidade do pen drive também tem o suposto orçamento pessoal de Nelsinho, com gastos médios de R$ 19 mil nos meses de março e maio deste ano.

Vai longe a relação que está disponível. Tem indicação por exemplo de R$ 8.000,00 de caixa dois para o advogado Cristiano de Souza Mazeto, segundo planilha de julho deste ano.

Cristiano Mazeto surgiu como patrono de Nelsinho em ação civil deste. Curiosamente é o advogado do ex-prefeito e atual deputado federal Abelardo Camarinha, inimigo declarado de Nelsinho e filho do juiz Décio Devanir Mazeto.

Os promotores públicos vão ainda cruzar dezenas de informações para detalhamento dos pagamentos assim como origem de toda dinheirama.

Pelos três inquéritos cíveis já demonstram como funcionava o esquema de mensalão e para cooptar aliados, assim como adquirir bens e serviços em benefício do espectro de Mário Bulgareli.

Até agora estão devidamente indiciados, além de Nelson Grancieri, o funcionário público André Belizário Jacinto e Emerson Santos Vieira, Lourival Simões e Paulo Hilário Júnior.

Traição pode criar homem bomba

Há um clima de salve-se quem puder na administração e de temor em decorrência dos múltiplos escândalos políticos e seus desdobramentos. Há onze dias na cadeia, Nelsinho de todo poderoso virou bode expiatório e pode se transformar no “homem bomba” contra justamente aqueles que até então protegia.

Em política e negócios paralelos a lealdade termina quando alguém é pego por investigações e escândalos.

O prefeito Mário Bulgareli não só escolheu Nelsinho para ser sua voz e representação em sete anos como estava convencido há até 90 dias que o assessor disputaria a sucessão municipal com seu apoio.

O ex-chefe de gabinete controlava toda administração, oficial e paralela. Era quem decidia tudo e a quem secretários municipais e aliados deveriam se reportar.

Mesmo depois de afastado continua agindo nos bastidores, o que gerou indignação dos integrantes do Ministério Público a reunirem ainda mais provas contra o ex-chefe de gabinete até culminar em sua prisão no último dia nove.

Enquanto Nelsinho vive a angústia da prisão, aqui fora Mário Bulgareli agiu e se safou de responder a comissões políticas da Câmara, mas essa semana pode ser afastado do cargo por causa da propina da merenda escolar.

Bulgareli até mantém maioria na Câmara, mas administração está paralisada e a cidade completamente abandonada para indignação e revolta da população. A oposição cresce a cada dia.

E a insustentável situação política e administrativa pode piorar muito, justamente por conta das investigações do Ministério Público Estadual, Polícia Federal e Procuradoria da República.

Na outra ponta está exatamente Nelson Grancieri e suas alternativas. Bulgareli ensaia nos bastidores abandonar seu pupilo.

Nelsinho pode optar pelo sistema de delação premiada e seria o maior “homem bomba” da história da cidade, não apenas porque sabe e operou todo esquema para Bulgareli, mas porque pode indicar igualmente todas as mazelas do período anterior, do criador de tudo, o ex-prefeito Abelardo Camarinha.

Se a cadeia leva Nelsinho ao desespero, a preocupação deve continuar com todo espectro de Bulgareli e Camarinha.

A libertação do ex-chefe de gabinete continuava até sexta-feira sendo tentada pelo advogado Luis Carlos que espera decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo no pedido de habeas corpus que já impetrou.

Fonte: Diário de Marília – 18/12/2011

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