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Partidos políticos viram “feudos” de famílias

17 de junho de 2013 - 12:09

Vários partidos políticos brasileiros de todos os tamanhos são dominados por grupos familiares que, em muitos casos, são bem remunerados para comandar as legendas. Levantamento da Agência O Globo realizado nos 30 partidos registrados oficialmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) encontrou pelo menos 150 parentes em cargos de direção nas legendas (veja alguns casos no quadro à direita).

Nos partidos menores os clãs familiares tornam-se os verdadeiros donos das siglas, dominando-as por até 28 anos. Às vezes, os pagamentos aos parentes ocorre de forma indireta: dirigentes recebem como consultores da própria agremiação que dirigem; diretores alugam os próprios imóveis como sede partidária; e carros de luxo são comprados para dirigentes. Tudo costuma ser pago com recursos públicos do Fundo Partidário, que distribuirá neste ano mais de R$ 300 milhões.

O Partido Trabalhista Cristão (PTC) – que já foi Partido da Juventude (PJ) e Partido da Reconstrução Nacional (PRN) –, por exemplo, tem como presidente, desde 1985, Daniel Sampaio Tourinho. Mensalmente, segundo a prestação de contas da legenda de 2010 enviada ao TSE, ele recebe R$ 4.486 como verba de representação, além de mais R$ 12 mil mensais a título de “serviço técnico profissional”.

Tourinho vive no Rio de Janeiro e seu filho, Daniel de Almeida, que é o presidente do diretório estadual, aluga um imóvel de sua propriedade para servir como sede da legenda. Em 2010, ele recebia um aluguel declarado de R$ 1.854. Além disso, a Executiva da sigla é dominada por parentes: dos 14 membros, cinco são da família Tourinho.

José Levy Fidelix da Cruz é outro dirigente partidário “vitalício”. Preside o PRTB desde que a sigla foi fundada, em 1995. Dos 12 integrantes da direção nacional do seu partido, cinco são parentes dele.

No PSL, Luciano Bivar é o presidente desde 2007. O filho de Luciano, Cristiano Bivar, aluga salas num edifício em Recife para o partido. O outro filho, Sérgio, é delegado nacional da sigla.

O domínio familiar não é restrito às pequenas legendas. No Pará, o PMDB estadual tem como comandante o senador Jader Barbalho, que mantém na Executiva a ex-mulher dele, Elcione, e os dois filhos: Jader Filho e Helder.

Comportamento histórico

O cientista social Paulo Roberto da Costa Kramer, da Universidade de Brasília (UnB), explica que a política brasileira desde a Colônia é dominada por famílias. “Essa é uma característica que já chamava a atenção dos viajantes que por aqui estiveram no período colonial, no Império e na República. É o patrimonialismo [uso privado de bens públicos] praticado de forma deslavada.”

“Espalhar” parentes por várias siglas é estratégia de poder

Melhor do que comandar um partido político é mandar em dois ou mais. Pode parecer contraditório, uma vez que o que se espera de uma agremiação política é a disputa pelo poder com outras siglas. Mas, no Brasil, há caciques políticos que mandam em seus partidos e exercem forte influência em outras siglas – normalmente por intermédio de um parente.

Tocantins é um desses exemplos. Uma das lideranças do estado é o senador João Ribeiro, que preside o diretório regional do PR. A mulher do senador, Cinthia Alves Caetano Ribeiro, comando o PTN local.

Em Alagoas, o ex-deputado federal João Caldas (hoje no PEN) também joga em várias frentes para disseminar poder. Em 2010, ele ganhou a suplência na Câmara Federal quando era do PSC. O filho dele, deputado estadual João Henrique Holanda Caldas, é o presidente do PTN local. Já a mulher dele, Eudócia Caldas, foi prefeita de Ibateguara pelo PP.

Negociações

A extensão do poder por outras legendas tem uma explicação simples: ao dominar mais de um partido, a família passa a ter mais influência na hora da formação das alianças eleitorais em seus estados, negociando com quem quiser o tempo de tevê. Além disso, as chances de uma família de políticos ocupar espaço em governos aumentam consideravelmente.

Ciro “compensa” perda de salário de deputado com assessoria à sigla do irmão

Desde que deixou a cadeira na Câmara dos Deputados, no início de 2011, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes tem outro emprego: presta assessoria política para o PSB do Ceará, cujo presidente é seu irmão, o governador Cid Gomes. Pela função, é muito bem pago: R$ 26,7 mil brutos por mês, o mesmo que um deputado federal. Esse tipo de pagamento não é ilegal.

Atualmente, Ciro não é mais integrante da direção estadual da legenda, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O PSB do Ceará também já teve na sua executiva outro irmão de Ciro e Cid: o deputado estadual Ivo Ferreira Gomes.

Em nota, a assessoria de imprensa do PSB do Ceará informou que Ciro presta assessoria política à direção estadual do partido por causa de sua experiência como ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro e ex- deputado.

Parentes

Confira alguns partidos que são dominados por uma família:

PTC

Daniel Tourinho, presidente do Partido Trabalhista Cristão, emprega quatro parentes na direção nacional. Além deles, o presidente do diretório do Rio de Janeiro também é seu filho.

PRTB

Dos 12 integrantes da direção nacional do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), quatro têm o mesmo sobrenome do presidente da legenda, Levy Fidelix.

PMDB-PA

O senador Jáder Barbalho preside o PMDB do Pará e emprega a mulher e os dois filhos na Executiva regional.

PTN

José Masci Abreu, presidente do Partido Trabalhista Nacional, emprega dois parentes em cargos da direção partidária.

PRP

Ovasco Altimari Resende, presidente do Partido Republicano Progressista (PRP), emprega três pessoas com seu sobrenome.

PTdoB-PE

Em Pernambuco, o presidente do Partido Trabalhista do Brasil, Severino Belarmino da Silva, emprega na legenda três parentes.

PRP-PE

O presidente do Partido Republicano Progressista em Pernambuco, Marcos da Silva Pontes, emprega dois parentes na direção regional.

Fonte: Gazeta do Povo

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