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Somos o povo borra-botas?

27 de julho de 2011 - 08:48
* Silvio Motta Maximino
 
Era uma vez um país encantado. Era um país que sonhava ser de Primeiro Mundo, mas acordava babando no travesseiro do Terceiro Mundo. Sonhava com saúde e educação… mas que pena! nem médico tinha no plantão, nem fé na educação. Este país encantado sonhava celebrar em arquitetura espantosa, a apoteose de eventos mundiais; sonhava embalado em trem-bala e no pó tipo exportação. Sonhava com bandido preso, e não premiado com cargo no Congresso; sonhava que criança ía na escola para aprender a ler e escrever; sonhava que escritores é que eram agraciados pela Academia de Letras, ao invés de jogador de futebol… 

Bom… depois de tanto sonhar um país, acordamos na manhã do último 07 de julho, sacudidos com a intrigante pergunta do jornalista espanhol Juan Arias em artigo publicado no famoso El País: por que os brasileiros não reagem diante da notória corrupção de seus políticos? Ele se pergunta por que milhares vão às ruas em prol dos homossexuais, ou em marchas “pró-Jesus” ou ainda pela liberação da maconha, mas permanecem inertes e incapazes de exigir punição dos corruptos que campeiam nação a fora. Nem os jovens escapam da letargia. Seríamos então um “povinho borra-botas”? somos um povo covarde, sem caráter, desqualificado? Denúncias pipocam semanalmente; a imprensa grita. E, após algum tempo de papelada, libelos e desagravos, em que ficamos? 

Afinal, que tipo de povo somos? Por que não estamos nas ruas exigindo a deposição e punição dos corruptos? Mas o leitor há de perguntar: isso de protesto e passeata resolve? Pintar o rosto, levantar faixa e andar sob o sol põe bandido na cadeia? faz larápio devolver o que roubou? Evidentemente que só isso não resolve. E acabaria dando no mesmo que ficar na mesa do bar repetindo a crítica estéril da revista semanal. Mas então, que fazer? Esse é o problema! Não sabemos como mudar ou não queremos que as coisas mudem? 

Outro dia, certa associação de bairro desse país encantado encontrou inusitada solução: cansada dos roubos no bairro, a associação não pestanejou e desabafou: Mandou pôr “outdoor” onde pedia, não a sumária deposição de políticos e autoridades incompetentes, mas tão somente que os ladrões se mudassem do bairro já que ali todos já tinham sido assaltados (sic!). A que ponto de desespero e surrealismo um povo pode chegar! A lógica e a ética estão tão invertidas que muitos desesperam extenuados. Não se pede mais que políticos mudem o comportamento; implora-se que bandidos mudem de endereço! 

Ironias à parte, uma constatação evidente: não sabemos o que é ser cidadão. Sabemos sim usar urna eletrônica, mas parece que ainda não entendemos bem para quê serve a eleição. Todos fomos bem ou mal educados para pagar impostos ou para sonegá-los, mas não fomos bem educados para a cidadania em contexto democrático. Podemos enfim, não ser o “povo borra-botas” que o artigo jornalístico descreve. Não acho que devamos vestir a carapuça.

O jornalista espanhol Arias fica intrigado ao comparar o grau de politização da jovem nação brasileira com os multimilenares povos do oriente médio ou com as supercivilizadas nações européias. Seríamos nós aqui, lenientes, resignados, primitivos por natureza? Seria algo de errado com o nosso código genético? Seria o carma ou então algum tipo de castigo divino?

A antropologia e a sociologia sugerem que o que condiciona de certo modo nosso comportamento social é algo subscrito em nosso código cultural. Nosso comportamento é fruto em boa parte, do ambiente de hábitos e costumes que respiramos desde que nascemos. A boa notícia é que a cultura é algo dinâmico, sempre se modifica, em diversos sentidos, de forma aleatória ou intencional, lenta ou rapidamente. Então, resta-nos não chorar o leite derramado. Importa darmos os primeiros passos para que as gerações futuras sintam o gosto bom dos frutos maduros da cidadania plena. Essa é a melhor herança que podemos deixar. Comecemos agora, estudando, nos preparando e agindo. Coesos iremos longe. O potencial de alguém só o favorece na medida em que se tem consciência dele. Não esperemos que milagres despenquem do céu em nossas cabeças pensantes. Agora é o momento de agir. 

O autor, Silvio Motta Maximino, é professor de Filosofia e Antropologia – voluntário da BATRA

Publicado no Jornal da Cidade – Bauru – Coluna Opinião – em 26/07/2011

 

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