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Você tem medo de fantasma?

19 de dezembro de 2011 - 09:40
 
Eles se infiltraram em todos os Poderes da República. Invisíveis, só aparecem quando são denunciados
Sabe o Pluft, o fantasminha camarada que tem medo de gente? Pois ele sentiria hoje muita vergonha se soubesse o que foi feito com a categoria no Brasil. Estamos cercados de fantasmas menos fofinhos e mais espertos que o Pluft. Eles se infiltraram em todos os Poderes da República. Como são invisíveis, só aparecem quando denunciados. Às vezes ganham prestígio graças ao toma lá dá cá.
 
O Judiciário ajuda o Legislativo, que ajuda o Executivo, que ajuda o Legislativo, que ajuda o Judiciário. Todos querem aumentos muito acima do possível no mundo real. Não só nos subsídios, mas nas mordomias. E quem paga os fantasmas são pessoas de carne e osso, contribuintes, eleitores, cidadãos. Que começam a perceber seu poder.
 
Na semana passada, a Câmara desistiu de aprovar o pacote de quase R$ 400 milhões de aumento para assessores dos deputados. Isso aumentaria a verba mensal de gabinete de cada deputado de R$ 60 mil para até R$ 90 mil. O recuo foi por causa dos protestos. Mas atenção: a Câmara só adiou a votação do pacote natalino para fevereiro, mês de folia, verão e Carnaval. Quantos fantasmas a Câmara e o Senado abrigam – e nós financiamos? Quem não reagir terá de se fantasiar de palhaço.
 
Eis o bloco animado dos fantasmas.
 
Jader Barbalho, fantasma na categoria ficha suja. Ex-governador do Pará, foi liberado pelo mesmo Supremo Tribunal Federal que o havia barrado. “É um ato de justiça”, disse Jader, preso por 16 horas em 2002 por dilapidar os cofres públicos. O pior é que Jader está certo. O STF decidiu no ano passado que a Ficha Limpa não poderia ser aplicada em 2010. Jader é um fantasma que ganhou novamente status de senador.
 
O Supremo Tribunal Federal, fantasma na categoria omissão. É inacreditável e vergonhoso que os juízes não tenham até agora conseguido votar a Lei da Ficha Limpa, aprovada pelo povo brasileiro, mas deem um jeitinho para reentronizar Jader Barbalho no Senado. O voto duplo do presidente do STF, Cezar Peluso, aconteceu um dia depois da visita da cúpula do PMDB. Peluso pediu apoio do PMDB ao aumento dos servidores do Judiciário. Por que o STF não vota logo então a Ficha Limpa? Ah, é preciso esperar pela juíza Rosa Weber. Ora, ministro Peluso, cadê seu voto de qualidade? A mesma lerdeza dos homens de toga leva o ministro Ricardo Lewandowski a dizer que o processo do mensalão pode cair por “prescrição”, porque não será julgado antes de 2013. É a Justiça fantasma.
 
Os 38 réus do mensalão, fantasmas na categoria formação de quadrilha. Esses são acusados de comprar votos, uma tradição antiga no país segundo o ex-presidente Lula. Quase como o jogo do bicho. Os réus contam com a falta total de vontade de alguns ministros do STF de julgá-los. Talvez porque os juízes achem que Lula tem razão. Sempre se comprou voto no Brasil. A ideia parece ser: sempre fomos corruptos, por que o PT não pode também ser corrupto? Vamos continuar todos sendo corruptos, porque a ética nada tem a ver com política.
 
As ONGs, fantasmas na categoria laranja. Endereços inexistentes, atividades inventadas só para justificar desvios. O governo federal divulgou suas auditorias: pelo menos R$ 7,3 bilhões repassados a Estados e municípios foram desviados nos últimos dez anos. A maior parte em convênios com “entidades”. Só no ano de 2011, o governo federal tenta recuperar R$ 1,4 bilhão de convênios irregulares, na Saúde, no Esporte, no Turismo… Sabe quando esse dinheiro fantasma vai reaparecer?
 
Os seis ministros exonerados por desvio de verba, fantasmas na categoria injustiça. Todos saíram “com a consciência limpa e a cabeça erguida”. Todos injustiçados pela imprensa e pelo fogo amigo e inimigo. Como não devolveram nada aos cofres públicos e como alguns até indicaram seus sucessores, são fantasmas que choram a perda das mamatas, mas sonham reencarnar em grande estilo.
 
 Fernando Pimentel, fantasma na categoria palestrante. O ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Robson Andrade, disse que Pimentel deu uma série de palestras em 2009, como parte do contrato de consultoria de R$ 1 milhão. Mas Pimentel não falou em lugar nenhum e ninguém escutou. Ninguém esclarece as palestras fantasmas porque “as explicações já foram todas dadas”.
 
 As sextas-feiras em Brasília, fantasmas na categoria abandono. Ministros quase não aparecem em solenidades às sextas-feiras. Dilma mandou recado: sexta é dia de trabalho, e eles têm de estar em Brasília. Mas será que Dilma nunca percebeu que o plenário no Congresso fica às moscas às segundas e sextas?
 
É muito camarada fantasma assombrando o Brasil. Mas, igual ao Pluft, eles têm medo de gente. Vamos assombrar essa turma em 2012.
 

RUTH DE AQUINOé colunista de ÉPOCAraquino@edglobo.com.br

 

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